As flores sempre foram um tema muito popular entre artistas, profissionais e amadores, dos mais variados estilos e técnicas.

A representação gráfica das plantas remonta há alguns milhares de anos e pode ser encontrada em desenhos rupestres, tanto em moradias como em objetos utilitários da pré-história. Mesmo que de forma estilizada, tinha, como finalidade, o reconhecimento das plantas e seu uso para a alimentação e a decoração.

Motivos da natureza já eram representados na arte medieval, em iluminuras dos livros manuscritos e em pinturas religiosas. Na Renascença, desenhos detalhados de flores foram feitos por Leonardo da Vinci, provavelmente como estudos para suas pinturas.

Em tempos mais recentes, artistas consagrados dos mais diversos movimentos artísticos usaram plantas e flores como tema. Apesar de poderem ser facilmente identificadas, mesmo que em largas pinceladas impressionistas, as “Ninféias” de Claude Monet ou os Girassóis de Vincent Van Gogh, não podem ser classificados como ilustrações botânicas ou mesmo como arte botânica. Mundialmente conhecidas e reconhecidas como ilustrações botânicas, as gravuras de Pierre-Joseph Redouté, ainda hoje podem ser encontradas à venda em bancas de rua e feiras das grandes cidades do mundo. Ricas em detalhes, muitas vezes representam vários estágios do desenvolvimento das flores e possuem impresso na gravura o nome científico da planta, uma característica das ilustrações botânicas.

Ao lado dos movimentos artísticos, estão a arte botânica e a ilustração botânica. Os artistas botânicos usam plantas e flores como tema para suas composições, sejam elas de expressão artística ou decorativa, com o uso das mais variadas técnicas de pintura. Por outro lado, os ilustradores botânicos são assim classificados porque, desde o início de um trabalho, manifestam a intenção de representar as plantas de forma que possam ser reconhecidas cientificamente, em todos os detalhes característicos de cada espécie, geralmente, colocam o nome científico da planta escrito abaixo da pintura.

Alamanda

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A ilustração botânica continua tão necessária hoje em dia como no apogeu dos estudos botânicos, durante o século XVIII, quando Lineu criou o sistema de classificação de espécies que ainda é usado. Os jardins botânicos, institutos de pesquisa e universidades, continuam a produzir pesquisa e formar novos pesquisadores e ilustradores. As expedições para coleta e estudos das plantas continuam e, portanto, novas espécies vêm sendo descritas e espécies já relatadas voltam a ser estudadas e classificadas. Pesquisadores saem a campo em busca de novos exemplares para comparação e descrição de espécies. Quando necessária, é programada a confecção de pranchas ilustradas, para a publicação e divulgação do resultado dessa pesquisa. Os desenhos poderão ser feitos a partir de plantas vivas ou herborizadas, pelo próprio botânico ou por um artista ilustrador, especialmente treinado para isso.

Além do uso em trabalhos técnicos de botânica, as aquarelas botânicas estão cada vez mais populares na produção de livros, calendários, gravuras decorativas, tecelagem e até mesmo em cerâmicas e louças para cozinha.

Os ilustradores e artistas botânicos transitam livremente entre ilustrações puramente científicas e ilustrações botânicas artísticas, para as mais diversas finalidades. Suas características descritivas, fiéis às formas e às cores reais, são sempre representadas e as plantas facilmente reconhecidas. Assim como as gravuras de Redouté, as ilustrações botânicas ainda levam o nome científico em latim, escritos abaixo ou ao lado das imagens.

O século XX representou um novo renascimento para a ilustração botânica. Desde então, o interesse vem crescendo e os artistas ilustradores são numerosos hoje em dia. Os principais jardins botânicos do mundo foram e ainda são os principais centros de estudos e pesquisa em botânica taxonômica. Em conseqüência, são possuidores das mais completas bibliotecas especializadas e mantêm os principais acervos de ilustração botânica.

A ilustração botânica vem sendo produzida manualmente, por técnicas semelhantes e ilustradores competentes desde o início da sua história. Os processos de reprodução, sim, foram mudando. Os avanços tecnológicos das últimas décadas, assim como a facilidade de acesso a todos esses avanços, por um número cada vez maior de pessoas, contribui e facilita os processos de reprodução e a divulgação científica. Algumas áreas da botânica, como anatomia e palinologia, já há algum tempo migraram da ilustração para a fotografia como a melhor forma de ilustrar seus trabalhos. Já na taxonomia, a ilustração tradicional continua a ser utilizada como técnica primordial e prevalece mesmo diante dos avanços tecnológicos. Um fotógrafo especializado em botânica, fazendo uso dos meios digitais de processamento de imagens existentes até o momento, poderá produzir algum tipo de ilustração que satisfaça às necessidades da pesquisa científica. Mas não poderá substituir o olhar e a habilidade de um ilustrador. Muitas vezes, o material usado como referência não é bom, podendo ser um antigo, fragmentado ou até mesmo com partes comidas por insetos. Nesse caso, o olhar treinado de um bom ilustrador poderá reconstituir as partes das plantas e a fotografia não. O ilustrador pode, por meio da interpretação e reconstituição do material em estudo, evidenciar aspectos e características importantes em cada espécie vegetal. Em certos casos, o desenho esquemático dos detalhes de uma planta facilita a descrição e a compreensão de uma estrutura vegetal.

Evidentemente, todas as novas tecnologias e os meios digitais de processamento de imagens são bem-vindos e não se pode afirmar que a ilustração botânica tradicional jamais será substituída por outros processos, assim como acontece com os processos de reprodução gráfica. Mas pode-se afirmar que uma fotografia jamais substituirá o trabalho de um ilustrador botânico.

 

Autor: Maria Cecília Tomasi

 

Livre resumo e adaptação de texto, do artigo da mesma autora, publicado no livro Do Éden ao Éden – Jardins Botânicos e a Aventura das Plantas – por Gil Felippe & Lílian Zaidan, Ed. Senac, 2008